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de luz e de sombra
 

...

Acabo de ver uma longa entrevista com Clarice Lispector.

Ela diz, como quem diz que hoje está chovendo que "quando não está escrevendo, está morta". Diz assim, redondamente, sem procurar adocicar essas palavras com nenhuma expressão facial. O rosto absolutamente frio de quem diz a verdade mais ululante. Diz isso assim como diz que "os adultos são tristes e solitários", sem a menor amargura.

Falar de morte é muito difícil, é desagradável essa idéia. Assim como é desconcertante a idéia de Deus. E Clarice trabalha com essas duas "coisas" de uma maneira muito intensa, "quase obsessiva". Dentro de sua criação, a morte e Deus - falando de forma muito por cima, por que não estou aqui fazendo nenhuma análise muito aprofundada, mas sim derramando algumas reflexões que me surgiram nesse momento -, são como duas coisas opostas, como antípodas (pode não ser bem isso, mas quero continuar desenvolvendo essa idéia que me surgiu). Deus como o êxtase criativo, como o ser humano na plenitude do seu encontro consigo mesmo, no seu núcleo (lembrando uma palavra que aparece bastante em G.H.) e morte como a ausência disso, como um "estar oco" - palavra que ela usa na entrevista -, estar sem o tato de si, sem se encontrar mais e, conseqüentemente, sem criar. Por que esse encontro se dá com a criação. No caso de Clarice, criar é escrever. Cada um tem sua forma de criar, sua linguagem. E são infinitas as linguagens.

Clarice tem uma relação com a arte de um compromisso radical com a liberdade - "eu faço questão de ser amadora" ela diz em algum momento.

Bem,

durante a entrevista, ela toca numa questão que me move, que me causa muitas maquinações na cabeça, por que tem a ver com meu olhar sobre o mundo, que cada dia mais amadureço e refino e essencializo. O homem pergunta se ela escreve esperando que suas palavras alterem alguma coisa no mundo (algo assim) e ela diz que não altera nada.

Pois,

cada dia que vivo no mundo e que vivo a arte e observo a relação das pessoas à minha volta com a arte, vejo que sim, altera. Inclusive, acredito que a arte é uma das poucas coisas que de fato tem o poder de mudar o mundo.

(Agora coloquei uma música argentina para ouvir, de um sujeito chamado Juan Dargenton. Me lembro que assisti a um show dele e seus músicos em Salvador no ano passado, ou há dois anos, não sei bem, e aquela música tocou meu corpo de uma maneira tão intensa... foi uma sensação muito física – e, além da música, a imagem deles me provocava também, uma série de novos fluxos corporais, a luz, aqueles instrumentos que até então nunca tinha visto e a postura deles, enfim, era tudo muito delicado. Era como se eu inaugurasse novos olhos (a experiência da arte é sempre uma inauguração de novos olhos, continuamente)).

Lembrei deles por que quero dizer que a arte nos toca no corpo e a vivência da arte transforma nosso corpo e nossa sensibilidade uma vez que nos vai fazendo descobrir uma série de lugares dentro de nós. E são infinitos lugares... a arte ativa fluxos, novos, reativa, cria, recria, traz à tona, surpreende. E essa vivência é muito enriquecedora para o ser humano, para os homens e para as mulheres. A sensibilidade vai ficando mais refinada – não refinada no sentido burguês da palavra, no sentido de algo diferenciado, superior, em contraposição com o primitivo, mas um refinado no sentido de mais fino mesmo, mais delicado, mais perspicaz, mais sensível enfim.

Ela fala que sua escrita é muito mais uma questão de sentir do que de entender. Clarice é ininteligível. É uma literatura dos nãos-entendimentos, das incompreensões, das buscas e não de encontros. Ela nos leva junto nessa busca, ela nos apresenta dúvidas, inaugura interrogações sobre nós mesmos, sobre o mundo. "Toca ou não toca". Ponto.

Isso está sublinhado, no meu modo de ver, com relação às artes plásticas, ou artes visuais, ou seja lá como se queira chamar. O caminho do entendimento, esse entendimento pela via do raciocínio, não leva a absolutamente nada – a não ser que o próprio artista tenha a intenção de levar por esse caminho. É uma relação de buscar novas regiões mesmo, são estréias que, muitas vezes são incômodas, difíceis nos primeiros contatos, inclusive por que é uma linguagem com a qual a maioria das pessoas não está acostumada. Ou mesmo podem ser explosivas já no primeiro toque, isso depende – tanto do artista que criou, quanto para o artista que observa, já que eu levo a ferro e a fogo a afirmação de Paul Klee de que "a apreciação da arte em si já é uma criação".

Eu citei as artes plásticas por que é a linguagem da qual que aproximo mais, mas vale para tudo. O teatro, o cinema. O cinema é a coisa mais próxima de um canhão que pode existir. Por que invade a retina de uma maneira que promove mesmo uma rasgadura, são desatamentos retina a dentro. Falar do teatro são horas... por que o teatro já começa por ser, essencialmente um pacto entre dois seres humanos, um diante do outro fisicamente: "a partir desse momento, nesse palco, eu não sou mais isso, eu sou outra coisa, estarei de porta-voz de uma outra realidade, de uma fábula que, nesse momento é real". É o pacto de uma realidade inventada naquele espaço e naquele tempo. E é uma voz sendo proferida... esse formato, presencial, tem uma força incrível, por que sé uma transmutação ali, na nossa frente. Enfim...

E é óbvio que a arte só TOCA quando fala de nós. Pra nós. Quando nos vemos ali. Seja que temática for, em que formato for...

É por ai que eu vejo um pouco... tem mais, tem várias vírgulas, vários porém, várias entradas e saídas dentro disso. Mas por enquanto é isso só.

Escrito por Vania Medeiros às 13h37
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do A Tarde On Line

Obras de quatro escultores baianos podem ser vistas no MAM



As esculturas de quatro artistas baianos [Agnaldo dos Santos, Juarez Paraíso, Mestre Didi e Rubem Valentim] podem ser conferidas até o dia 18 de junho no Museu de Arte Moderna da Bahia, na Avenida Contorno, Solar do Unhão. No total, mais de 20 obras estão expostas no local, que fica aberto à visitação de terça-feira a domingo, das 13 às 18 horas.

As obras dos artistas afro descendentes ganharam destaque no livro do livro “Bahia – Negras Raízes”, de César Romero, que foi lançado nesta quinta-feira, 25, no Museu. O livro possui 77 páginas, com fotos das esculturas e textos sobre o trabalho dos baianos.

“Através do diálogo e das obras dos quatro escultores encontramos a síntese reveladora de um povo. Um conjunto de caracteres próprios, uma poética de formação da brasilidade. Um elo de saudade entre um passado remoto e hoje”, avalia o autor do livro, que possui 77 páginas, com fotos das esculturas e textos sobre os trabalhos.

O escritor foi admitido como crítico de arte pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), com sede em São Paulo, por avaliação de trabalhos teóricos e práticos. É membro da Brasilian Association Of Art Critics e da Association Internationale Des Critiques D´ Art, ong com sede em paris e reconhecida pela Unesco.

Artistas- Agnaldo dos Santos nasceu na Ilha de Itaparica em 1916. Chegou a trabalhar como vigia no atelier do escultor e pintor Mário Cravo Junior, onde passou a se interessar por arte. Foi influenciado por outros artistas e acabou expondo suas obras no VI Salão Baiano de Belas-Artes em 1956, quando obteve medalha de prata. Participou ainda da IV Bienal de São Paulo e do VII e IX Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Foi na capital carioca que o baiano expôs individualmente pela primeira vez e depois teve suas obras em mostras estrangeiras.

Juarez Paraíso nasceu em 1943 em Arapiranga e foi professor da escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Participou de diversas exposições no Brasil e no exterior e, em Salvador, já esculpiu dezenas de esculturas, fez murais e calçadões para praças e prédios.

Mestre Didi nasceu em 1917 e sempre teve uma vida ligada à arte. Além de escultor, foi ensaísta e publicou mais de 20 livros sobre historias de terreiros de candomblé e contos da tradição afro-brasileira. Seus trabalhos esculturais inspiram-se na natureza, em relações simbólicas e místicas.

Rubem Valentim nasceu em 1922 e morreu em são Paulo aos 69 anos. Autodidata, passou pintar em 1940 e foi um dos responsáveis pela mudança do código da arte baiana e brasileira. Formou-se em odontologia, mas largou a profissão para dedicar-se à arte.


Serviço
Onde: Museu de Arte Moderna da Bahia, na Avenida Contorno, Solar do Unhão
Quando: Até o dia 18 de junho, de terça-feira a domingo, das 13 às 18 horas
Entrada: Gratuita


Escrito por Vania Medeiros às 12h17
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O que tá rolando...

Mostra retrata cotidiano de ambulantes nas ruas de Salvador
A Tarde On Line

A mostra "Vendedores Ambulantes" pode ser conferida até o dia 4 de junho no Conjunto Cultural da Caixa, na Rua Carlos Gomes, de segunda a domingo, das 9 às 18 horas. Pintadas pela baiana Graça Ramos, as 25 telas foram produzidas após quatro anos de estudo e são inspiradas em fotografias que a artista faz de vendedores nas ruas da capital baiana.

"Vendedor de Sacos", “redes†e “bonés†, dentre outros tipos registrados em cada ponto da cidade, ganham uma interpretação poética nos quadros pintados em acrílica mista. As fotos que deram origem à exposição podem ser vistas durante a mostra, que tem entrada franca.

Os ambulantes pintados e fotografados por Graça Ramos podem ser vistos ainda em um vídeo. O clip tem duração de 20 minutos e foi co-produzido por Nelson Magalhães. Os visitantes poderão assistir ao filme durante a exposição. Existe a possibilidade de aproveitar o material do vídeo para a produção de um comentário, segundo Graça Ramos.

A idéia de levar a vida de vendedores para as telas surgiu quando a baiana passou a observar o dia-dia das pessoas que tiram o seu sustento nas ruas de Salvador, sobretudo nos bairros de Piatã, Canela e na Passarela do Iguatemi. A história dos ambulantes também remete à infância de Ramos, quando ela morava na cidade de Feira de Santana.


Vendedores Ambulantes

Quando: de segunda a domingo
Onde: Conjunto Cultural da Caixa, na Rua Carlos Gomes
Horário: 9 às 18
Ingressos: Entrada franca

Escrito por Vania Medeiros às 21h22
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Um pouco de Clipping...

Matéria sobre Bel Borba, o homem que coloca sua marquinha em tudo o que é rua da cidade de Salvador. Saiu no site Overmundo.

vale a pena dar uma conferida:

Quem é a artista que tem seu nome espalhado por toda a capital da Bahia?

Inquieto, andando de um lado para o outro, selecionando esculturas... As telas já estão nas malas. É véspera da viagem para Portugal, onde vai expor, e Bel Borba fala enquanto toma as últimas providências. “Traz um charuto de, no máximo, R$ 12”, pede para seu assistente. “Esse aqui custou R$ 3, mas a vendedora disse que um cubano que passou pela loja (no Pelourinho) disse que era muito bom”, responde o assistente, um minuto depois. Com o charuto na mão, Bel finalmente se senta. “Pode começar a entrevista”, diz. “Que charuto ruim!”, são as palavras seguintes.

Ver as obras “enclausuradas” em sua loja na Ladeira do Carmo, no Pelourinho, é no mínimo estranho. Bel é artista da rua. Artista pelas ruas. Suas obras estão espalhadas pela cidade de Salvador. Difícil não associar seu nome ao da cidade. “Quem é esse tal de Bel Borba que faz tanta coisa aqui na Bahia?”, perguntou, certa vez, uma amiga minha, de São Paulo. “Quem é Bel Borba?... Está aí. Boa pergunta”, respondi. Artista completo... pinta, faz esculturas, cria mosaicos, inventa cenários de teatro... Transforma. Assina o nome pelos quatro cantos de Salvador. Impossível ficar no anonimato. Ainda mais com o bigode a lá “Salvador Dali” que cultiva há mais de um ano.

Alberto José Costa Borba, soteropolitano, filho de advogados, nasceu em 23 de janeiro de 1957. Aos 8 anos, criou sua primeira obra em xilogravura. Vendeu para uma vizinha. “Desde aquele tempo, vivo da arte”, orgulha-se. O artista chegou a cursar Direito durante dois anos, mas logo se rendeu definitivamente ao talento. A
Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi o passo seguinte. Não chegou a concluir. Precisava viajar demais, levando sua arte para as mostras espalhadas pelo Brasil.

Antes, chegou a trabalhar em uma agência de publicidade. Com o primeiro salário, comprou uma prancha de surfe. Pegou onda em Bali e aproveitou como pôde os anos 70. Na arte, dedicava-se principalmente à pintura com spray. “Comecei a achar o spray comercial demais. Queria algo no estilo feito à mão”, conta. Pintura a óleo foi a solução encontrada para fazer “arte com cara de arte”.

Logo estava criando cenários para peças de teatro, principalmente as dirigidas por Márcio Meirelles. Dessa forma, aprendeu a trabalhar rápido. Para estreitar o abismo entre a arte e o público, levou suas obras para as ruas. “Tudo aqui é meio céu aberto. Salvador tem essa cultura de rua”, observa, com metade do charuto em mãos.

Conhecer – e reconhecer – seu trabalho não é tarefa difícil para quem circula por Salvador. Do viaduto que liga Ondina a Garibaldi surgem morcegos em mosaico. No Rio Vermelho, orixás no Largo de Dinha abençoam quem passa pelo bairro boêmio. A feia encosta na subida para a Fazenda Grande ganha forma de uma enorme tela onde pássaros feitos em mosaico tornam a paisagem admirável.

Das ruas, para os museus. A mostra Por Favor, Não Matem Raul Seixas! passou pelo
Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) e agora viaja o mundo. Antes, duas personalidades já haviam sido homenageadas por ele: Pierre Verger e Glauber Rocha. “O próximo será Márcio Meirelles. Será a primeira pessoa viva que vou homenagear”, revela.

Enquanto isso, faz planos para construir uma praça em Itaparica, local onde está localizado seu ateliê desde o início deste ano. “Vou comprar um terreno, procurar apoio para colocar a luz e os bancos. Praça é isso: luz, bancos e algumas esculturas”, conta. Mais uma vez, o artista preocupa-se em levar a arte para a população. “Dessa forma, venho contribuindo para desmistificar o fazer e o apreciar a arte”, opina. “A arte é a coisa mais exuberante feita pelo homem. A natureza tem suas belezas, o homem tem a arte”, compara, enquanto apaga o charuto...

por Thysa Jackes




Escrito por Vania Medeiros às 13h52
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confissão criadora...

 

Senecio

(Paul Klee)

 

Um dos livros sobre arte mais importantes na minha vida ... não, não.

 

O livro MAIS importante sobre arte na minha vida é uma coletâna de textos de Paul Klee, chamada "Sobre arte Moderna e outros ensaios" (da Jorge Zahar Editor).

 

Minha produção e minha percepção da produção de imagens por outros indivíduos mudou completamente. Klee fala de linhas, pontos, planos e espaços como : "energias lineares, energias planas"... Energias. A arte de Klee é uma experiência metafísica... ele rejeita a representação realista do mundo:

 

"quanto mais puro for o trabalho gráfico, isto é, quanto maior a ênfase sobre os elementos formais em que se baseia a apresentação gráfica, menos apropriado será o aparato para a apresentação realista das coisas visíveis".

 

Klee diz da arte como forma de compreensão do mundo. Toda sua reflexão tem como centro o olhar - "o ansiar, esperar, pressentir o mundo" e ter na arte a forma de traduzir isso. "A arte não reproduz o visível, mas torna visível".

 

ele diz: "a apreciação da arte é, em si, uma criação".

 

Jardim Mágico

(Paul Klee)

 

 

Pinceladas do livro de Klee.

 

“É preciso (no processo de observação do artista) que a faculdade da compreensão e da percepção estejam unidas. É preciso querer ver”. Klee

 

“Como pintor, sinto possuir os meios de expressão para por os outros em movimento na direção em que eu mesmo sou impelido. Não me sinto capaz de, com palavras, indicar com a mesma certeza tal caminho”. Klee

 

“Nada me impede de achar tudo inesgotável, sem desgaste: de onde a arte deveria partir senão dessa alegria e tensão do eterno recomeço?” Rilke

 

“Enquanto a arte não se libertar do objeto, ela é descrição, literatura, reduzindo-se à utilização de meios de expressão equivocados, escravizando-se à imitação. E isso também vale para quando ela enfatiza os fenômenos luminosos de um objeto, ou as relações de luz em meio a vários objetos sem que dessa maneira a luz se eleve até alcançar uma independência apresentativa.” Robert Delaunay

 

MMMMMM.... fazendo um comentário:

 

- Eu concordo só em parte com Delaunay. Por que a arte da representação do objeto, do retrato não é uma mera imitação, ela é interpretação, ela é criação. Mas eu acho importante perceber e discutir a autonomia da arte plástica, a independência que ela pode ter, o que não significa que DEVA ter com relação à literatura, a possibilidade e a validade da perda do seu caráter narrativo. A arte plástica não precisa ser uma narrativa. E é essa a grande questão da arte moderna, da arte abstrata, etc, se libertar das palavras, com discurso, a primazia da forma. OK, é uma formas de ver. Mas pode ser de outra forma. A arte pode narrar, pode dizer, deve dizer também.



Escrito por Vania Medeiros às 11h31
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Por falar em Corbusier.....

 

“Ao lado da prática pedagógica da experiência coletiva, da paciente disciplina cotidiana da Bauhaus (a que são submetidos, entre outros, Klee e Kandinsky), voltada para a modificação constante mas gradual do ambiente, Corbusier mais sugere um terrorista, um agitador carismático e incendiário, no melhor estilo vanguardista do começo do século. No horizonte, a “civilização da máquina; em foco, a busca por uma arquitetura que fosse realmente contemporânea dessa realidade tecnocientífica. Estética industrial, lógica, exatidão mecânica. Vêm dessa viagem as soluções práticas que se universalizaram: os pilotis o terraço-jardim, a janela horizontal; assim como a arquifamosa (e polêmica) visão da casa como machine à habiter, maquina de morar. Arquitetura “racional”, “funcional”, “internacional”, “objetiva” – eis ai alguns dos rótulos a que se recorreu para designar os cortes que esses volumes claros da arte novecentista de edificar vieram realizando no espaço da modernidade.

 

De Antônio Risério em “Avant-garde na Bahia”. P. 97.



Escrito por Vania Medeiros às 10h17
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Le Corbusier em duas dimensões

Estão expostos no MAM desenhos e pinturas (e uma escultura) do arquiteto e urbanista franco-suiço Le Corbusier.

Le Corbusier é considerado um visionário no campo do urbanismo, um "propagandista da modernidade", militante por uma arquitetura que integre de forma harmônica o homem com a natureza - "o sol, o espaço, o verdor". Em suas obras ele põe em prática o que considerou os 5 pontos de uma nova arquitetura: pilotis, plano livre graças ao abandono da parede de sustentação, fachada livre com painéis de vidro, janelas com bandô, terraço- cobertura.

No plano bidimensional, do desenho, o artista demontra claramente muitas referências ao cubismo. A primeira coisa que eu e minha acompanhante exprimimos, em úníssono, ao entrar na sala de exposição foi: "Parece Picasso!". Narizes de perfil em rostos de frente, muitas, muitas cores...

A exposição conta também com cartazes muito interessantes.

Vale a pena conferir. Está aberto todos os dias, menos às segundas-feiras.

Para ler:

Para quem gostar da exposição e quiser saber mais sobre a obra e o pensamento de Le Corbusier, este livro é uma coletênia de ensaios e impressões dele:

"Precisões sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo" - Le Corbusier

Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura

Posfácio: Carlos A. Ferreira Martins



Escrito por Vania Medeiros às 09h05
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Surpresa boa no Conjunto Cultural da Caixa



Instalações... “humpf!”

Normalmente, o que surge no rosto da maioria das pessoas quando entram em contato com instalações em artes plásticas é uma enorme interrogação, quando não um resmungo cheio de desdém. É uma linguagem muito pouco palatável, de difícil leitura para muitos – inclusive para essa que vos fala. Aliás, isso é o que acontece, de maneira geral, com toda arte que não é figurativa, que não tem objetos “cognoscíveis”, conhecidos, que propõem re-construções das formas... enfim, que não têm um discurso por baixo, que não tem palavra “dentro”.

Eu mesmo tinha esse sentimento de “como assim?” (e ainda tenho, muito), quando vou a uma exposição e vejo aquelas composições que, na maioria das vezes, não vão muito além da experimentação com o material, do trabalho com texturas etc... geralmente não provocam muito meus sentidos mesmo (e, na minha concepção, a arte tem que te levar a algum lugar - seja de contemplação, ou irritação, ou reflexão, ou entretenimento... -, tem que “atiçar” por dentro...).

Na semana passada, porém, fui ao Conjunto Cultural da Caixa, ali na Carlos Gomes, e tive uma surpresa muito boa.

Bené Fonteles

Fazia tempo que uma exposição – de um trabalho com instalações - não me tocava tanto. Trata-se da exposição de Bené Fonteles, um artista paulista.

Tentando fazer uma “descrição”, ou seja, tentando dizer em palavras aquilo que eu mesma acabei de dizer que não tem palavras: é sobre o tempo nos objetos e a voz desse silêncio alterando suas formas. Sobre a ferrugem, que é o tempo “coisificado”, é um retrato do tempo...

Ele trabalha com arames, cordas, redes – objetos coletados em ambientes de vivência marítima – e expõe fotos desses mesmos objetos nos seus lugares de origem.

Nos leva a uma reflexão muito gostosa da relação íntima do tempo e do homem com aqueles objetos, a transformação de sua matéria ao longo da vivência com esses dois elementos. Tudo feito por Bené com grande sensibilidade, delicadeza e mesmo respeito – quase uma reverência – por tudo aquilo que é coletado.

Ref(v)erências

Num dos ambientes tem uma homenagem a Iberê Camargo, artista que morreu cego, um expressionista brasileiro de grande talento. Essas são pra tocar. Aliás, tudo que tem na exposição é pra ser tocado, deduzo eu, já que os textos estão também em braile.

Manoel de Barros, Leonardo Da Vinci e Van Gogh estão também citados nos trabalhos de Bené.

Lembrando que...

É preciso de um silêncio e um estar aberto aquilo com muita calma. Estar aberto para aquela linguagem sem palavras.

Ah, sim, e levem 2 quilos de alimento pra ganhar o catálogo que tem um texto maravilhoso sobre a obra.

E termino com um câmara cascudo, exposto lá:

O maior modelador é o silencio
O pescador é o profissional do silêncio
O jangadeiro deve ser silencioso no meio da musicalidade selvagem do mar.
É o único trabalhador que não pode conversar nem cantar enquanto dure a tarefa.

Não há, evidentemente, um vocábulo expressivo e fácil para traduzir as visões da vida jangadeira possuído pelo pescador da jangada.
É uma narrativa esquemática, clara, incisiva,
riscando como um diagrama de percurso as linhas essenciais do motivo impressionador.

Nada mais lógico que este estado natural de taciturnidade tranqüila.
A jangada não comporta conversa nem cantiga.
Há apenas a rápida troca de ordens e a sugestão de uma manobra num tempo relâmpago.


Escrito por Vania Medeiros às 10h21
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Arte no cotidiano

 

No último dia 18 morreu no rio Franz Weissman, escultor austríaco radicado no Brasil. Franz foi uma figura importante para a escultura brasileira por que participou de um dos grupos que introduziu a estética construtivista no Brasil, o Grupo Frente, propondo uma nova forma de representação nas artes plásticas que fugia ao figurativismo (que é a representação de objetos “da realidade”, conhecidos aos sentidos).

 

O construtivismo surgiu na Russia, no contexto da Revolução. Era um movimento não só da arte plástica, mas também da poesia e mesmo do cinema, que via a arte não como representação, mas como construção, como exploração do espaço (do vazio, no caso da escultura, e da tela, no caso da pintura), da geometria, dos materiais, e que pudesse estar aliada com funcionalidades práticas da vida dos indivíduos. Por isso, as obras construtivistas se aproximam muito da arquitetura.

 

Uma antena, um banco, a entrada de um prédio... imagens vazadas onde as pessoas pudessem entrar, sair, que estivesse em confluência com o entorno. Interagir e refletir no processo da vida cotidiana.

 

O construtivismo brasileiro queria se opor a um determinado tipo de modernismo figurativista ufanista, que evocava símbolos “nacionais”, tolhendo a expressão, cristalizando um discurso populista, limitante. Faziam parte do Grupo Frente diversos outros artistas importantes como Amylcar de castro e Lygia Pape. Ferreira Gullar também encabeçava o movimento.

 

Weissman tem várias obras por ai, a maioria esculturas, com as quais ele brinca com as formas geométicas, desmonta figuras no espaço, compõe a partir de reentrâncias, volumes, cores, materiais diversos. Estão quase todas no Rio e em São Paulo.

 

Aqui na Bahia, a gente tem Mario Cravo, uma figura que também vai um pouco nesse sentido, de explorar o expaço, de transgredir a forma. Algumas coisas dele são bastante criticáveis, eu acho (vide Clériston Andrade, ali na Garibaldi), mas acho as coisas dele no parque de Pituaçu muito bacanas e interessantes. Devo falar sobre elas, por aqui.

 

Eu não gosto de dizer que “perdemos um grande artista”, por que tudo que ele deixou é um ganho pra nosso olhar. Ele sempre vai estar ai, muito vivo nas cidades. Acho que o fato de ele ter ido é importante pra que se reflita um pouco sobre atitude na arte, o que se quer com o que se faz, sobre o que deve ser a arte na cidade...



Escrito por Vania Medeiros às 11h49
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"Cabeça" (Basquiat)

Arte pra ver, pra tocar, pra entrar por dentro, pra tomar banho nela, pra ficar debaixo de sua sombra, pra subir em cima, pra ficar pensando, pensando...

Arte na cidade, dentro de galerias, guardada em museus, arte no banheiro, no hall do prédio, não autorizada nos muros da cidade, arte na pele, arte no tapete, no copo de água, no cesto de fruta, na revista em quadrinhos.

A apreciação da arte, já é em si uma criação. É um jogo de armar: metade está lá, do lado de lá dos olhos, a outra metade, do lado de cá, de dentro. De modo que todo mundo faz arte o tempo todo, dentro da cabeça, juntando as peças deste quebra-cabeça alucinado que é o mundo.

Neste espaço eu vou tentar exprimir um pouco do que eu leio, do que eu sinto a partir da minha apreciação do que se faz nas artes plásticas, pela cidade e pelo mundo, e, volta e meia, do meu próprio fazer artístico.

Isso também é uma tentativa de criar um espaço para a reflexão sobre este tipo de arte, espaços estes que são tão raros. Sejam bem vindos.



Escrito por Vania Medeiros às 21h20
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